Barreiro a pé

A cidade e eu

Minha primeira casa em Belo Horizonte ficava num bairro da Zona Norte chamado Santa Mônica, quase em Venda Nova (ou efetivamente Venda Nova quando a explicação se dirigia a alguém de muito longe). Morava ali, estudava ali e conhecia algumas outras regiões onde viviam meus parentes: o Sion, o Cachoeirinha, Contagem. E o centro era um lugar de se ir algumas vezes por ano para comprar roupas ou resolver coisas que só se resolvem por lá.

A partir de uma certa idade, pude me virar sozinha e conhecer outras partes da cidade, lugares que eu passei a frequentar principalmente por conta dos amigos ou pelas opções de lazer. Com isso, comecei a construir meu próprio mapa de BH, de início repleto de espaços em branco, de ruas intermitentes, de lugares que só existiam ligados a memórias e que, por serem muito íntimos, não faziam parte dessa cidade de todos. Somente aos poucos fui capaz de preencher certas lacunas e descobrir, por exemplo, que, de alguma maneira que ainda hoje me causa estranhamento, Contagem está logo atrás do Jardim Zoológico. E pude também, por exemplo, criar novos sentidos para o centro, produzir uma ponte entre a rua da Bahia de Pedro Nava e a minha, entre o Bar do Ponto e o Maletta.

Barreiro não é um lugar tão longe assim

Pela lógica com que habito Belo Horizonte, nunca tinha tido motivos para ir até o Barreiro, região que figurava na minha mente como uma outra cidade. Esse foi o motivo porque a escolhi quando me propuseram um exercício de experimentação do espaço urbano que fugisse da minha zona de conforto. Decidi então caminhar por seus bairros sem definir elementos específicos de observação, a fim de tentar apreender suas características gerais e a atmosfera da região como um todo. Fui amparada por algumas ideias propostas pela Internacional Situacionista, movimento da década de 60 que reuniu poetas, arquitetos, cineastas, artistas plásticos e outros profissionais em torno de críticas a um modo de pensar as cidades como espaços de consumo, de admiração distanciada e não de vivência, de atualização de seus usos e sentidos pelos habitantes. Eles acreditavam que os sujeitos deveriam passar de simples espectadores a construtores e transformadores dos lugares onde vivem. Para isso, propunham experimentações do espaço urbano baseadas no método da psicogeografia – que buscava mapear as ambiências de uma cidade observando como os locais afetam os habitantes subjetivamente – e na prática da deriva, técnica que consistia em caminhar desprovido dos objetivos que normalmente nos movem, como ir ao trabalho, estando aberto ao acaso. Através desse exercício, eles buscavam produzirmapas afetivos da cidade.

Adotando essa metodologia da psicogeografia, da percepção das ambiências e da deriva, mas sem me restringir a ela, convido um ex-morador do Barreiro para caminhar comigo, o Douglas (pseudônimo), que gosta muito da região. Expliquei a ele com qual perspectiva e com que objetivos pretendia fazer esse exercício, inclusive mencionando que os Situacionistas sugerem que a deriva seja feita em grupos de até quatro pessoas que devem discutir suas impressões após o final da prática. Disse que meu pano de fundo era a tensão entre dois modos de conceber a cidade, um hegemônico que a enxerga como espaço funcional, de passagem, de circulação, e outro de excessão que a vê como espaço de sociabilidade. Comentei sobre a oposição que faz Michel De Certeau entre cidade panorama, vista de cima de modo a tornar o espaço urbano legível e organizado, e cidade habitada, complexa, onde não é possível fugir dos estímulos constantes, das trocas comunicativas. E que nós estávamos do lado da excessão.

Decidimos que iríamos de carro até o Barreiro, pela facilidade de nos movermos lá dentro, e que iríamos durante um dia de semana. Para chegar até lá, pegamos o anel rodoviário, essa via rápida que corta a cidade e funciona como alternativa ao trânsito normal quando nos deslocamos grandes distâncias, vale ressaltar. Saindo dele, passamos ainda por Contagem – cheia de concreto, fuligem e caminhões – antes de chegar ao Barreiro, que, talvez pelo contraste, me deixou como primeira impressão a quantidade de árvores. Em seguida, talvez pela distância e pela sensação de termos entrado em uma rodovia, tive a impressão de ter chegado ora em uma pequena cidade que já não era Belo Horizonte ora em um lugar parecido com o que eu morei na infância, bastante suburbano. Pedi ao Douglas que escolhesse um ponto para começarmos a caminhada e que me dissesse a razão.

Descemos então próximo ao seu antigo bairro, o Cardoso. Chegamos na avenida Barão de Monte Alto, longa, onde fica a escola em que o Douglas estudou até a quarta série. Naquela época, quando ele e sua mãe iam ao sacolão, eles paravam lá para beber água. Lembrando disso, ele propôs que nós fizéssemos o mesmo, mas não pudemos porque agora existe uma grade que controla essa entrada e alguém para tomar conta, talvez justamente para evitar que estranhos entrem no colégio. A imagem da escola aberta à comunidade pareceu bonita, e a mudança talvez se deva ao crescimento da região, ao aumento da criminalidade e à perda de confiança dos habitantes uns nos outros.

Em seguida, entramos na rua Itapetininga, onde ele morava. Ela se inicia com casas e termina com um grande conjunto habitacional de prédios nos dois lados da rua, prédios já um tanto velhos. Em frente a um ponto de ônibus, ele me mostra uma árvore que sua mãe um dia plantou por cansaço de esperar o coletivo embaixo de sol, um flamboyant. Hoje ele está bem grande, suas raízes, inclusive, estão arrebentando a calçada. Ao lado dele, algum outro morador improvisou a construção de um banquinho. Um pequeno exemplo de como os habitantes entendem melhor de suas necessidades em relação à cidade do que o poder público, e de como eles podem reinventá-la por contra própria, contrariando a noção de que essa é uma função exclusiva das autoridades. Isso há alguns anos atrás, nesse período em que a família do Douglas viveu ali, mas talvez essa proximidade dos moradores com o lugar onde vivem ainda exista.

Mais à frente estava o prédio onde o Douglas morou, o último do lado direito da rua. Vimos sua antiga janela que dá para uma mafumeira (aquela árvore que produz um tipo de algodão) e, ao fundo, a Serra do Curral. Fiquei realmente comovida de estar tão perto da serra – que é possível avistar de vários pontos de BH, com suas favelas e antenas aqui e ali – e de perceber que aquela era uma área limítrofe não só do bairro, mas também da cidade. Além dali, não havia mais moradores, só o trilho do trem, mato, árvores e um córrego. Descemos até a beira do córrego para averiguar seu grau de poluição, mas ele não parecia tão sujo quanto nós prevemos: havia inclusive um caminhão-tanque puxando água de lá. O Douglas disse que, segundo fontes não autorizadas, aquela é a nascente do rio Arrudas (cuja cabeceira está realmente na região do Barreiro, mas não consegui saber com certeza se essa informação confere). Me lembrei da cidade natal de minha mãe e da casa onde ela nasceu, com um córrego correndo atrás, ao natural, e um morro ao fundo. Oscilo entre estar numa cidade pequena, interiorana, e num bairro que sofre os efeitos do crescimento urbano.

Comentei com o Douglas que, apesar de essa ser uma região periférica em relação ao centro de BH e na sua maior parte pobre, ela não é favelizada. Chegamos à conclusão de que isso pode ter como causa o fato de o Barreiro ser anterior à construção de Belo Horizonte, ocupado nessa época por fazendas e famílias que se estabeleceram como tradicionais e que se mantinham de forma autosuficiente e sem conexão com a futura capital. A região, portanto, já era habitada e bem estabelecida. Pensamos que as favelas vieram depois da cidade construída, quando a população pobre é empurrada para as margens desabitadas e lá se estabelece sem auxílio e sem planejamento.

Fomos depois até o trilho do trem, o que me deixou novamente comovida porque aquilo não era o mesmo que olhar o trilho do metrô de cima da plataforma da estação. Pareceu ser um ato fora da lei, mas acho que menos porque nós tivemos que entrar ali burlando algum cerco ou sinalização, por exemplo, do que por puro hábito, por costume às regras (além de ser ligeiramente perigoso). Enquanto estávamos lá, surgiram dois ciclistas que seguiram o caminho dos trilhos em direção a Nova Lima e, em seguida, alguns rapazes que entraram para fumar maconha. Esse é um espaço que está distanciado do centro do bairro, onde não há muito movimento de carros nem de pedestres, por isso reagimos com sobressalto à aparição dos dois grupos. Pensei que o perigo também faz parte da cidade habitada, também é conflitivo.

Passamos por outros lugares, porém de carro. O Douglas me explica que esse bairro que visitamos é mais residencial, que existe ainda o “Barreiro de baixo”, bastante comercial, onde fica o Via Shopping, um supermercado Via Brasil e outros comércios de grande porte. E que existem outros bairros parecidos, outros mais ricos, outros mais pobres e favelas na periferia da região. Percebemos depois que não interagimos com ninguém, o que poderia ter sido bom para a nossa percepção do lugar. Mas acredito que por ter ido acompanhada de um ex-morador tive afinal contato com histórias sobre as pessoas dali e pude perceber alguns hábitos e modos de vida. Foi especialmente rica essa companhia porque suas histórias me contaram sobre situações de algum tempo atrás, 10 ou 15 anos, sobre as quais eu pude projetar e perceber certas mudanças. E porque eu tive contato com uma dimensão talvez difícil de alcançar em uma deriva: a da memória dos habitantes. Segundo nossa conversa, a experiência dele também foi influenciada pela minha companhia, alguém que desconhecia completamente o Barreiro e que o levou a perceber detalhes que ele nunca tinha reparado.

2 pensamentos sobre “Barreiro a pé

  1. Vicente disse:

    Pru! Adorei passear no Barreiro com vc e com o Douglas (pseudônimo mesmo? haha)
    Sempre penso nessa percepção diferenciada que nos causa a situação de ser o guia. Tanto quando recebo alguém de Goiânia em BH, quanto quando é alguém daqui que vai a Goiânia… Gosto muito quando a pergunta mais natural para o “estrangeiro” nunca passou pela nossa cabeça de quem vive ali… Às vezes invento umas mentirinhas que depois desminto, quando o caso é de completo desconhecimento da minha parte hehehe.

    • Pru disse:

      Não sei que mentirinhas o Douglas (não devo desmascará-lo) me contou, mas ele disse que nunca tinha pensado em como o Barreiro é um lugar meio “isolado”, que não nos dá muitas opções de entrada: de um lado tem a Serra e do outro tem Contagem, ou mais ou menos isso. Dá pra ver o Buritis de alguns pontos, mas parece não haver um acesso fácil entre os bairros por conta dos trilhos do trem. Diz o Douglas, que já saiu lá da casa dele e foi até Nova Lima seguindo o caminho dos trilhos, que é estranhíssimo sair do Barreiro, entrar num mato e varar no Buritis. Enfim, com isso eu consigo pensar muita coisa sobre os modos de vida daquela região.

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