Fichamento

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS

COMUNICAÇÃO SOCIAL

COMUNICAÇÃO E CULTURA URBANA E CONTEMPORÂNEA

EXERCÍCIO DE DERIVA

SAMARA ALVES EDMUNDO

Escolhi fazer meu exercício de deriva na cidade interiorana de Paraopeba (MG), percorrendo o centro comercial e urbano do município. Utilizei a técnica da passagem rápida observando o meio físico, estético, e psicológico variados que fui encontrando.  Procurei me guiar pelo conceito de deriva que “está indissoluvelmente ligado ao reconhecimento de efeitos de natureza psicogeográfica e à afirmação de um comportamento lúdico-construtivo” (p.87. Teoria da Deriva).  Meu percurso está longe de ser um passeio comum, mas foi uma entrega às solicitações do espaço e das pessoas que encontrei. Pretendi mergulhar no cotidiano da cidade e observar apropriações nem sempre visíveis, mas que estão lá. Segundo o texto “Dispositivos de Memória e narrativas do espaço urbano”, não se consegue esgotar a multiplicidade dos fluxos, produtos e apropriações, mas apenas fazer recortes e momentos que falam da diversidade em sua interação cotidiana e histórica. Para os autores a noção de deriva passa pela interpretação conjunta destes aspectos e fragmentos. A ocupação dos espaços produz uma ideia de ritmo social. “A partir da observação de comportamentos individuais, podemos identificar unidades espaço-temporais como expressões justapostas ou sobrepostas sobre um mesmo espaço, e/ou marcação de espaços por grupos ou conjuntos de habitantes”. Os ritmos de vida se tornam dimensões sociais.

A cidade não pode ser observada como algo imutável, pois ela nunca se encaixa completamente na funcionalidade pelo qual ela foi instituída. Seu passado também gera uma dimensão, que pode concordar ou discordar com o presente. “Ao mesmo tempo em que o lugar urbano está no presente por completo ele também é composto por muitos tempos, ou seja, se apropria dos tempos/espaços antigos segundo novas normas”. A cidade não é algo inerte. Mesmo a cidade não sendo absolutamente sincrônica entre o tecido urbano, as políticas urbanas ou sociais, a cidade está inteira no presente. “A articulação das experiências do tempo passado vem constituindo um espaço de experiência que é atualizado no tempo presente ao se realizarem práticas culturais”. A experiência é um passado presente cujos acontecimentos são incorporados e podem ser lembrados, e moldados para uma expectativa futura. “A experiência é o futuro feito presente, ainda não experimentado, mas que pode ser descoberto”.

O centro de Paraopeba está situado ao redor de uma praça, onde se localiza a única banca de revistas e jornais da cidade. Comecei, então, minha deriva deste ponto e vi que muitas das pessoas mais velhas liam seus jornais ali mesmo, nos banquinhos da praça logo à frente. A praça é um lugar pequeno, mas que foi apropriado por vendedores de água de côco e cachorro-quente. Percebi que aquela praça é um lugar de tranquilidade no meio de um grande movimento comercial. As pessoas, porém, apropriam dos dois ambientes com ritmos parecidos. As ruas estão com bastante movimento de carros e pedestres, mas estes parecem se locomoverem com calma, parando em pontos de passagem para conversar ou olhar lojas. A cidade faz 100 anos e o único semáforo do centro da cidade está desligado, já que os carros não o respeitavam muito. Segui, então para uma fila grande que se direcionava a um estabelecimento: era o novo sacolão da cidade, que atraía grande parte dos consumidores naquela manhã. Naquele ponto, andar se tornou difícil e os pedestres passam a se apoderar das ruas, mesmo que o trânsito esteja movimentado. Naquela mesma esquina percebi que nem todos os carros respeitavam a placa de contra-mão recentemente posta e segui com mais cuidado, agora em direção a uma música e uma voz em microfone que anunciavam roupas à preços populares, mas o barulho pareceu em vão: a loja estava vazia. Percebi também que aquela área não foi construída para ser um centro comercial. Ao redor pude ver casas antigas, onde moradores mais velhos se sentavam à porta para observar o movimento do sábado de aleluia. Na esquina se localiza o asilo da cidade, bem perto também de uma grande avenida, que no passado foi onde passava a BR-040. Os pontos comerciais tiveram que se adaptar ao movimento natural da cidade. Várias lojas faliram em frente a banca de revistas, até se tornar uma lan house, onde os jovens se encontram. Esta mesma rua, a mais movimentada em termos de comércio, à noite se torna um reduto de bares e música, mesmo o lugar sendo mal iluminado e pequeno, fazendo os carros mal conseguirem passar pelo local. O lugar faz um contraste com a praça da igreja, grande e bem iluminada, mas quase deserta nas noites dos finais de semana.

A construção do mapa narrativo surge através da análise das ruas, paisagens, ambiência e situações comunicacionais. “A paisagem comunicacional exige um ponto         de vista que relaciona tudo que a compõe: os sujeitos que vivem ali, trabalham, frequentam ou apenas passam as fachadas dos edifícios, o comércio, a sinalização, os acontecimentos”. Qualquer componente deve ser compreendido em relação ao conjunto no qual está situado. “Uma paisagem é vista aqui como resultante dos diversos significados circulantes nela e até fora dela. Nela se cruzam diversos processos que dizem respeito às regulações, aos acontecimentos, à memória, à história de um lugar. Assim, uma paisagem do ponto de vista comunicacional é composta de edifícios, ruas, marcas e signos impressos neles e também pelo material simbólico que circula nela e sobre ela”.

SILVA, Regina Helena Alves da; FONSECA, Claudia Graça; FRANCO, Juliana de Oliveira Rocha; MARRA, Pedro Silva; GONZAGA, Milene Migliano. “Dispositivos de memória e narrativas do espaço urbano: cartografias flutuantes no tempo e espaço”. In: E-Compós (Brasília), v. 11, 2008.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: