O endereço da sofisticação em Belo Horizonte

Em outubro de 2010, a revista Viver Brasil publicou uma matéria sob a seção Varejo, com o título “Quarteirões do luxo”. Nela apresentava um trecho da rua Rio de Janeiro como sendo o “endereço da sofisticação na capital mineira”. De acordo com a publicação, o trecho corresponderia aos quarteirões delimitados pela avenida do Contorno e a rua Tomás Gonzaga:

“Num raio de cinco quarteirões na rua Rio de Janeiro, concentram-se nada menos do que 15 endereços comerciais de moda e decoração. Para detalhar este roteiro fashion, a Viver Brasil percorreu todo o trecho delimitado entre a avenida do Contorno e rua Tomás Gonzaga. O quarteirão comercialmente mais povoado fica entre as ruas Felipe dos Santos e Antônio Aleixo e reúne sete lojas. Produtos grifados, localização central, segurança, estruturas confortáveis e sofisticadamente decoradas, atendimento personalizado e mimos, muitos mimos, à clientela.” – revista Viver Brasil

A lembrança da publicação desta matéria, por mim, se deu à partir da leitura de “Notas sobre o espaço público e imagens da cidade”, da arquiteta e professora  da Universidade Federal da Bahia Paola Berenstein Jacques, publicado na revista eletrônica Arquitextos, onde a autora levanta o problema da espetacularização urbana. As questões levantadas por Jacques nortearam a escolha por esta paisagem. Extrapolando o foco da matéria, que era o varejo, o objetivo era perceber e identificar elementos deste espaço físico, de seu arranjo espacial, de sua sociabilidade e até mesmo de sua atmosfera, que o distinguissem e lhe fossem particulares, principalmente, em relação à região de seu entorno. A rua Rio de Janeiro é bastante extensa; atravessa os bairros de Lourdes e Centro, indo de um lado a outro da avenida do Contorno e, por isso, bastante heterogênea no que diz respeito aos seus frequentadores, transeuntes, espaços, estrutura, serviços e construções. Desejava-se, ainda, na realização deste fichamento em campo, identificar e pontuar os dispositivos da região delimitada (a Rio de Janeiro da sofisticação) que convocam, orientam e condicionam as relações que as pessoas têm com o espaço.

As derivas foram feitas no mesmo dia (10/04, terça feira) em dois horários; a primeira se iniciou às 14:30 e a segunda às 18h, isso para perceber o mesmo trecho em momentos distintos. O trecho foi percorrido partindo-se da rua Rio de Janeiro na esquina da rua Tomás Gonzaga, até o final da rua no cruzamento com a avenida do Contorno. Depois, à esquerda descendo a rua Espírito Santo, passando novamente pela Tomás Gonzaga, subindo a rua Curitiba e finalizando em seu cruzamento com a avenida do Contorno. Isso por duas vezes, nos horários citados acima.

Os “quarteirões do luxo” da rua Rio de Janeiro, observados atentamente, são impressionantemente homogêneos. Podem ser resumidos – sem o risco de se deixar nada de fora – em: ruas bastante arborizadas, passeios largos, lojas extremamente luxuosas, poucas pessoas transitando (principalmente no começo da tarde), muitos carros circulando e estacionados (e é um lugar onde se vê muito facilmente veículos de luxo e/ou importados) e uma quantidade impressionante de prédios residenciais – muitos também sendo construídos. A sensação é de uma certa esterilidade, provocada pela quase ausência de pessoas circulando, bem como de lixo jogados nas ruas, pichações, grafites, outdoors, cartazes colados, bares, enfim, tudo aquilo que faz do Centro e de outros bairros tão “vivos”, e que “falta” ali.

Todos estes elementos citados (os presentes e os que faltam) acabam por configurar um espaço espetacularizado, pacificado e domesticado. Como pontuou Jacques, através do processo de mercantilização da região – gradativamente transformada em “endereço da sofisticação da capital mineira” – uma nova imagem foi (e está sendo) criada para este espaço urbano, a fim de conquistar para ele novos lugares geopolíticos na rede global de cidades turísticas e culturais. Como bem cita a autora, “hoje, paradoxalmente, a referência de espaço público dito “de qualidade” passa a ser um espaço privado, na maior parte das vezes, um espaço interno, cercado e com segurança privada.”. E é exatamente este tipo de espaço que a região tratada neste fichamento apresenta: a presença de manobristas e seguranças nas portas das lojas e edifícios residenciais é marcante; bebês passeiam em seus carrinhos acompanhados de profissionais devidamente identificadas como “acompanhantes”, tipo incomum em qualquer outro lugar e visto mais de uma vez no mesmo dia; as lojas são todas muito amplas e iluminadas. Suas fachadas são imponentes e até mesmo intimidadoras, marco regulatório, talvez, do tipo de frequentador e consumidor para o qual ela se anuncia.

Às 18h, quando se acreditava que o clima e a atmosfera deste urbano se transformaria radicalmente, as diferenças são poucas. Saídas do trabalho e das aulas, algumas poucas pessoas são percebidas nas lojas e transitando nas ruas. Faz falta nestes cinco quarteirões percorridos qualquer tipo de espaço de convívio. Não há praças, parques, sequer bancos; os bares e alguns bistrôs e cafés se concentram sobretudo na região entre as ruas Tomás Gonzaga e Antônio de Albuquerque. Ao final do dia, pôde se perceber a sensação de movimentação, do burburinho do fim do expediente e do happy hour e da noite que se iniciava. Fora deste eixo, a calma e o silêncio provocados pelo pouco número de pessoas ainda se mantinha.

Os quarteirões da rua Rio de Janeiro do bairro de Lourdes, que agora são os “quarteirões de luxo de Belo Horizonte”, ainda estão à espera da cidade e dos espaços verdadeiramente públicos que pulsam ao seu redor. Como salienta Jacques, o espaço social é produzido e estruturado por conflitos, são sempre plurais e produzidos a partir de uma confrontação agonista e múltipla de superfícies discursivas. Pode-se observar claramente como isso é inexistente na região, ainda à “espera” de intervenções, tensões, conflitos, do democrático, de gente.

“(…) os conflitos urbanos não só precisam ser considerados como legítimos e necessários, mas que é exatamente da permanência da tensão entre eles que depende a construção de uma cidade mais democrática, que mistura permanentemente, embaralha e tensiona as fronteiras entre espaços opacos e luminosos (lisos e estriados, nômades e sedentários) mantendo viva a tensão entre eles no que podemos chamar de “zonas de tensão”, ou seja, precisamos urgentemente aprender a trabalhar com os conflitos e a manter essas tensões no espaço público, aprender a melhor agenciar, atualizar e incorporar estes conflitos e tensões nas teorias e práticas urbanas (…)” (JACQUES, Paola Berenstein)

Por: Pollyana Teixeira da Silva

Referências:

AVELINO, Luciana. Quarteirões do luxo. Viver Brasil, Belo Horizonte: Outubro, ano 2, nº46, p. 36 – 41, out. 2010. Disponível em: http://www.revistaviverbrasil.com.br/54/materias/01/especial-varejo/quarteiroes-do-luxo/

JACQUES, Paola Berenstein. “Notas sobre espaço público e imagens da cidade”. In: Arquitextos (São Paulo), 2009. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.110/41

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