Fichamento – Rua da Bahia e Caminhadas pela cidade

A proposta inicial para esse fichamento era andar pela Rua da Bahia em um dia de semana e em um dia de fim de semana para perceber as mudanças de circulação e de usos do espaço. Entretanto, após ter contato com a rua percebi outras formas de acesso às significações da Rua da Bahia às quais preferi dar maior relevância já que me chamaram mais a atenção. A partir do texto de Michel de Certeau, Caminhadas pela Cidade, irei descrever minhas experiências e impressões a respeito desta rua nos seguintes aspectos: as grafias nas paredes de casas e prédios, a circulação de pessoas e carros nos diferentes pontos da rua bem como as casas e prédios antigos ao longo de toda a Rua da Bahia.

Comecei o meu trajeto pela Rua da Bahia com Avenida do Contorno. O local é bastante movimentado principalmente devido aos carros. A circulação de pessoas não é tão intensa quanto em outros pontos da rua. Seguindo os quarteirões até a altura da Praça da Liberdade, no cruzamento com a Avenida Bias Fortes, a rua é bastante tranquila e era possível parar em determinados pontos tranquilamente para tirar fotos e gravar os sons do local. A rua é praticamente silenciosa se não fossem os barulhos de ônibus e carros que circulavam sem excessos. O horário era entre às 14h e 15h. Neste trecho foi possível perceber ritmos menos acelerados da vida urbana. Muitas das pessoas que se encontravam na rua moravam ou trabalhando por perto. O único tumulto que presenciei foi um caminhão que tentava estacionar na calçada, próximo a um ponto de ônibus.

A partir do texto citado de Michel de Certeau, é possível constatar que o ato de andar pela cidade é uma apropriação do espaço por um “eu”. Para tanto, o espaço por onde caminhei foi significado por mim, baseado em minha experiência naquele local.  O caminhar pela cidade envolve a extração de fragmentos do espaço, que significa a seleção de certos aspectos, e o esquecimento de outros. Para Certeau, “o caminhante transforma em outra coisa cada significante espacial”.

Em minha experiência no decorrer da Rua da Bahia, me interessei e captei diversas relações da cidade com seus transeuntes. Mas, quando me deparei com as fotos que havia tirado percebi um uso da rua que muitas vezes é esquecido ou totalmente incorporado à malha urbana e se faz engolido pela multidão de pessoas ou por outros objetos ao redor. Me refiro às artes urbanas e às apropriações gráficas que passantes na Rua da Bahia deixaram. Suas marcas, culturas, pensamentos estão fixados trazendo significações que vão se refazer, ressignificar, sempre que alguém às ler.

Em praticamente todos os pontos da Rua da Bahia, entre Avenida do Contorno e Praça Rui Barbosa, há a presença de escritos, pichações ou artes nas paredes. Dentre estas paredes estão a da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, padarias, prédios residenciais, casas mais antigas, escadas, etc. Estes fragmentos retirados por mim da rua significam o que Certeau descreve como “histórias fragmentárias e isoladas em si, dos passados roubados à legibilidade por outro, tempos empilhados que podem se desdobrar mas estão ali antes como histórias à espera e permanecem no estado de quebra-cabeças, enigmas (…)”. Esses desenhos e escritos, ou seja, esses textos, são “uma multidão de referências e citações (modelos sociais, usos culturais, coeficientes pessoais)”. Estão sujeitos a alterações e outros usos, outras leituras, acabando por instaurar uma retórica. São fragmentos que viram um pedaço da história e da vida da Rua da Bahia.

Muitos outros aspectos da rua me chamaram a atenção, mas vou falar sobre alguns deles de maneira reduzida, devido ao foco dado ao texto e ao pouco espaço para tantas experiências e leituras. O ritmo na Rua da Bahia muda conforme nos aproximamos da Avenida Afonso Pena e principalmente quando passamos desta em direção à Estação Central / Praça Rui Barbosa. Neste trecho foi difícil até de tirar fotos, pois as pessoas não esperavam que eu parasse e acabavam me atropelando. Era difícil parar e observar o movimento das pessoas a não ser que eu ficasse em um canto onde ninguém precisasse apressadamente passar, situação que não ocorreu em pontos acima da rua, locais mais residenciais. Apesar de ficarem incomodadas de eu estar andando lentamente e parando de repente, os transeuntes não se importavam que eu tirasse foto deles uma vez que eles nem percebiam o que eu estava fazendo. Nos espaços mais residenciais da rua as pessoas se desviavam do foco da minha câmera e me olhavam com curiosidade.

Na região central da rua o barulho se torna muito mais forte e é constituído por diversos sons: carros, gritos, buzinas, risadas, vendedores ambulantes que anunciavam seus produtos e ofertas, músicas em caixas de sons nas portas das lojas, etc. A vida da cidade neste trecho da Rua da Bahia é mias intensa, mais corrida, e os signos da cidade se multiplicam de maneira tal que é impossível percebê-los em sua totalidade, os significados e informações se transformam em uma rede difícil de observar com maior atenção.

Em toda a Rua da Bahia a presença de prédios e casas mais antigas foi marcante. Algumas construções estavam conservadas, outras abandonadas e outras desgastadas devido ao tempo. A arquitetura é rica e remete a diversos estilos, tempos, pensamentos e cultura. É possível perceber uma confluência de vários tempo e vários sociedades que por ali passaram e viveram.

Como conclusão foi possível conceber a cidade percebida pelo texto de Michel de Certeau. A cidade é constituída por um projeto urbanístico, planejamento e desejos de funcionamento. Mas, ao mesmo tempo, esse projeto é reestruturado pela vida urbana que nele vive, trazendo à cidade aquilo que o projeto urbanístico dela excluía. Assim como Certeau afirma, “a cidade se vê entregue a movimentos contraditórios que se compensam e se combinam fora do poder panóptico”, “sob os discursos que a ideologizam, proliferam as astúcias e as combinações de poderes sem identidade, legível, sem tomadas apreensíveis, sem transparência racional – impossíveis de gerir”.

Aryanne Araújo

Referência Bibliográfica

CERTEAU, Michel de. Caminhadas pela cidade. In: A Invenção do cotidiano. Vol.1 – Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

Um pensamento sobre “Fichamento – Rua da Bahia e Caminhadas pela cidade

  1. Amanda Lima disse:

    Eu tava com dificuldade de entender o texto do Certeau, mas tua experiência me ajudou muito. Gratidão.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: