“Notas sobre espaço público e imagens da cidade” – Paola Berenstein Jacques

Por Bruna Acácio

Referência: JACQUES, Paola Berenstein. “Notas sobre espaço público e imagens da cidade”. In: Arquitextos (São Paulo), 2009. Disponível em:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.110/41
Paola B. J. aponta que os espaços públicos – vivos, intensos e conflituosos – passam por um processo de pacificação no contexto contemporâneo da espetacularização urbana. Busca-se ocultar conflitos e eliminar dissensos, gerando uma visada apolítica das cidades e o empobrecimento da experiência urbana. Como forma de luta, Jacques sugere a adoção de micro-resistências que explicitem os conflitos e dissensos próprios do urbano.

O processo de espetacularização que toma campo nas cidades contemporâneas se relaciona com a diminuição da participação cidadã e da experiência corporal das cidades nas práticas cotidianas. Em contraponto à “cidade vivida”, erguem-se “cidades espetaculares” (cidade-museu, cidade-genérica), que ocultam e eliminam a vitalidade dos espaços públicos.

A espetacularização se dá através de um processo de mercantilização das cidades: a publicidade, o marketing e o branding criam novas imagens para as cidades, a fim de conquistar para elas novos lugares geopolíticos na rede global de cidades turísticas e culturais.

Ao serem construídas aos moldes da publicidade, as novas imagens sobre a cidade são transformadas em mercadoria, em peças publicitárias. E, portanto, como representativas de um consenso. Neste sentido, não há lugar para o dissenso, para o contra-hegemônico.

Os espaços públicos contemporâneos são vistos como estratégicos na promoção das imagens construídas. São eles mesmos reduzidos ao imagético, não se levando em conta as experiências sensíveis e os conflitos vivenciados nestes espaços.

Se transformar o espaço público em imagem publicitária é espetacularizá-lo, é, ao mesmo tempo – e em decorrência disto – desencarná-lo, eliminar a sua vitalidade e suas especificidades, tornando-o homogêneo e consensual. É o que faz muitos dos projetos urbanísticos contemporâneos, que são produzidos em todo o mundo sob os mesmos moldes, gerando cidades padronizadas. A cidade de Barcelona é exemplar: o modelo catalão de “fazer cidade” é exportado para a América Latina através de consultores que replicam as “boas práticas” em pacotes vendidos para mais de 75 cidades do sub-continente.

Isto faz com que cidades distintas se pareçam cada vez mais. E não só devido aos espaços privados, como redes de fast-food, bancos e shoppings centers que atuam globalmente sob as mesmas formatações. Também os espaços públicos são reconfigurados (“revitalizados”) à semelhança dos espaços privados: são pacificados e domesticados. Para ocultar e eliminar os conflitos, os espaços são cercados, amplamente controlados e vigiados (policiados).

As imagens reproduzidas e veiculadas são, então, de espaços aparentemente destituídos de seus conflitos. O que Paola Berenstein Jacques defende é que este é um processo de despolitização dos espaços públicos. Quando apresentados como consensuais e pacificados, são imagens de espaços apolíticos.

A pesquisadora compartilha da concepção de política de teóricos como o filósofo francês Jacques Rancière e a cientista política belga Chantal Mouffe, que entendem o conflito e o desentendimento como categorias fundamentais do político. Logo, pacificar os espaços públicos, transformando-os em meras imagens espetaculares são a própria negação do político.

O “espaço modelo” não prevê conflitos e é idealizado como o “lugar onde se materializam a cidadania, a boa convivência e o civismo”. Porém, por trás do espaço público pacificado, da imagem consensual de civilidade, há uma outra cidade, desigual, conflituosa, marginalizada e escondida.

Esta outra cidade tornada opaca existe e resiste por trás das imagens dos cartões-postais. As “imagens simulacros consensuais” não conseguem apagar a “outra cidade” latente e pulsante. Paola B. Jacques pontua que a cidade-viva, em que esta outra cidade toma corpo, são uma resistência à espetacularização.

A pesquisadora defende ações políticas que conduzam uma resistência à espetacularização, através de ações que explicitem o conflito, que afirmem a coexistência não pacificada de diferenças. Um dos caminhos possíveis apontados por Jacques é a intervenção artística:

“As ações artísticas críticas na cidade são micro-resistências urbanas e têm o objetivo de ocupar, se apropriar do espaço público para construir outras experiências sensíveis e assim, perturbar essa imagem tranquilizadora e pacificada do espaço público que o espetáculo do consenso tenta forjar”.

Como visto, compreende-se aqui a arte para além de uma função cenográfica ou de embelezamento (que está a serviço da espetacularização). A arte é pensada como “fonte explicitadora, mantenedora e até criadora de tensões no espaço público”, dando a ver o campo de tensões entre os que têm e os que não têm voz ativa.

A autora chama atenção para a potencialidade da experiência corporal urbana como micro-resistência. A experiência urbana se inscreve no corpo daquele que a experimenta, criando uma relação sensível e dissensual do corpo com o espaço público.

Um exemplo é a intervenção aCerca do Espaço, do grupo mineiro Zona de Interferência, realizada em Salvador. Os artistas caminharam por pontos de grande movimentação da capital baiana vestindo “cercas” – de madeira, de arame farpado, de aço. A proposta era problematizar e poetizar a relação de cada um com o espaço que nos cerca e com as cercas que construímos ao nosso redor – assim não somos invadidos, nem atingidos, nem atravessados – e fazem referência aos muros reais e simbólicos erguidos na espetacularização urbana.

A leitura do texto vem ao encontro das discussões realizadas em classe(Comunicação, Cultura Urbana e Contemporânea). É possível tecer um paralelo com o texto de Certeau, “A invenção do Cotidiano”: os espaços públicos pacificados são como a Cidade Panorama, envolvidos num afã de planejamento e disciplina que aprisiona a cidade; já a “outra cidade”, viva, é a Cidade Habitada, constituída por sujeitos ordinários que se relacionam com ela de forma complexa e conflituosa.

É possível também ver entrelaçamentos com o texto “Dispositivos de memória e narrativas do espaço urbano: cartografias flutuantes no tempo e no espaço”, pois o que sugere Paola B. Jacques com suas “micro-resistências” é exatamente a apropriação da cidade, a observação das relações dos caminhantes (e seus corpos) com a cidade.

À medida que o texto de Jacques dá a ver as relações de poder que perpassam a cidade, pode-se também relacioná-lo com o de Bauman, “Em busca de refúgio na Caixa de Pandora”. Os dois textos partem da constatação de que as cidades estão sob um paradigma de espetacularização que conduz a uma necessidade de pacificação – neutralização dos conflitos e organização do espaço urbano de modo a se proteger dos perigos estimulados pelo medo e insegurança reinantes na contemporaneidade. Ao mesmo tempo, ambos estudiosos defendem a evidência das diferenças e o contato com o outro como as bases para extirpar as “raízes do medo” (Bauman) e a imagem tranquilizadora do espaço público pacificado, forjada pela espetacularização (Jacques).

No site em que o texto referência está disponível, há também uma série de links de outros textos que contemplam a discussão, bem como do grupo de pesquisa de Jacques e das intervenções artísticas citadas pela autora.

Sobre Paola B. Jacques:  Professora  da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, compõe o grupo de pesquisa Laboratório Urbano, que investiga metodologias para a compreensão  da complexidade do espaço  público contemporâneo.

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